A hélice de dois gumes

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“Gosto de meter as hélices nas palavras e nas idéias”, diz o protagonista de Reflexões de um Liquidificador. A frase, que soa poética, vem do próprio liquidificador, no longa-metragem de André Klotzel, renomado cineasta brasileiro, de “A Marvada Carne” (1986) e “Memórias Póstumas” (2001). Tive a oportunidade de assistir esta obra do cinema nacional na época da faculdade, um período que, por sinal, assisti muita coisa de conteúdo e qualidade. A proposta do filme é diferente, e chama a atenção justamente pela mistura de fantasia e realidade.
O último longa de André Klotzel, carregado de humor ácido e de bons atores, retrata bem o trabalho de uma das revelações do cinema independente brasileiro dos anos 80. “Eu quero sempre fazer um filme que eu gostaria de assistir”, diz Klotzel. Isso explica o porquê do diretor e produtor não ter sido desta vez também o roteirista, como ocorria em seus trabalhos anteriores. Mesmo acreditando que é muito difícil ter empatia com o roteiro, o de Reflexões de um Liquidificador, de José Antônio de Souza, encantou Klotzel logo de início. “Gostei do tom de fantasia misturado com o tom de realidade”, diz.
O filme, que custou dois milhões de reais, teve a história embasada na vida de uma dona de casa, Elvira (Ana Maria Torre), e de seu liquidificador (Selton Mello), que ganha vida após a troca de hélices e começa a reclamar a certa altura da capacidade que tem de entender a tragédia das pessoas. O filme traz poucos elementos, poucos lugares, elementos muito típicos. Um bom exemplo é a casa, usada como principal lugar do longa, que foi escolhida a dedo, por ter o perfil dos personagens Elvira e Onofre (Germano Haiut), e de seu estilo de vida, pacato, velho, atrasado.
O aparelho doméstico, porém, foi o que deu mais trabalho. O antigo modelo Walita teve sua cúpula aumentada e foram usados três liquidificadores, com três motores diferentes. Segundo o cineasta, um deles vibrava, outro era um motor normal e o outro era um motor elétrico que não fazia barulho, mas que ajudava no diálogo que devia ocorrer para a Ana Maria Torre saber o momento de atuar. O protagonista da história surreal ligava e desligava sozinho, a distância, eram alteradas suas velocidades e foram utilizados 30 copos de acrílico iguais.
As cenas, transitando sempre do horror para o cômico foram trabalhadas com muito cuidado. O que Klotzel queria desde o início era que os momentos trágicos não se tornassem patológicos, um típico filme de terror. Por isso, como no momento em que Elvira tritura o corpo de Onofre no liquidificador, a música foi claramente leve. O filme tentou, de certa forma, trabalhar com o sentimento das pessoas, não banalizar o trágico e ter uma leve ponta de humor. Afinal, como diz o liquidificador, “o sentimento humano é uma hélice de dois gumes”.

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