A televisão não será revolucionada

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O documentário A Revolução não será televisionada, dirigido e filmado pelos irlandeses Kim Bartley e Donnacha O’Briain, jornalistas da Televisão Estatal Irlandesa (RTE), exibe o processo do golpe militar na Venezuela contra o presidente Hugo Chávez, em 2002, e como a mídia foi um fator determinante para o desenrolar dos acontecimentos políticos no país. A dupla irlandesa conseguiu registrar com eficiência todos os momentos, inclusive dentro do Palácio de Miraflores.
Sete meses antes do golpe, Bartley e O’Briain chegaram na Venezuela para filmar um documentário sobre Hugo Chávez, e foram surpreendidos pelos acontecimentos políticos que desencadearam o golpe militar, mudando assim o foco das filmagens. A partir da mudança temática, a dupla organizou um vídeo, em ordem cronológica, com acontecimentos desde o início do mandato de Chávez até seu retorno após o golpe. Tomaram como enfoque o processo político e o poder midiático envolvidos, usando imagens reais venezuelanas e também televisivas estatais e privadas.
Em 1998, Chávez foi eleito pela maioria num país rico em petróleo, o 4° maior produtor do mundo, mas repleto de desigualdades, com 80% da população pobre. Tendo seu apoio político advindo desta classe pobre, e lucro petrolífero concentrado nas mãos das classes econômicas dominantes, o novo presidente prometeu à sua população redistribuir as riquezas nacionais e envolver o povo nos processos políticos da nação. Seu propósito estava caminhando bem, causando intensa participação política nacional. Todavia, também causou preocupação internacional, principalmente norte-americana, o que desencadeou todo o conflito e golpe.
Chávez acreditava no poder da mídia e achava que só ela faria com que todos tivessem acesso à revolução bolivariana e aos resultados das ações de seu governo. Para isso o Estado tinha como plataforma disponível a Rede Nacional de Rádio e Televisão Venezuelana, com um único canal televisivo, que atendia o povo e colocava em prática as intervenções políticas. Com tais ferramentas, os ideais socialistas de Hugo Chávez estavam surtindo efeito, até que a oposição entrou em cena.
Os opositores do governo, tendo como líderes Pedro Carmona e Carlos Ortega, reivindicavam a volta do antigo regime econômico e político e anexavam ao presidente caráter insano e ditador. Chávez passou a enfrentar uma verdadeira batalha na mídia, contra cinco canais de televisão privada do país. A arma do presidente voltou-se contra ele próprio.
Um bom exemplo da intervenção dos meios de comunicação na política foi o que ocorreu no dia do choque entre as marchas oposicionista e “chavista”. Em 11 de abril de 2002, cenas do conflito entre as marchas foram manipuladas (fato comprovado por um produtor que pediu demissão) e o discurso midiático fez com que os telespectadores acreditassem que os “chavistas” atiravam sobre os opositores, quando na verdade ocorria o contrário.
Outro fato que mostrou o poder e a manipulação midiática foi a forte campanha contra Chávez nos canais privados. Exacerbações do discurso com expressões como “governo polêmico”, “insanidade mental do presidente Chávez” e insinuações de ligações com Fidel Castro e com o narco-terrorismo colombiano. E apesar de toda a efervescência da massa popular a favor de Chávez, os meios privados ainda ousaram dizer que “o ‘chavismo’ apóia-se cada vez mais na violência, na medida em que perde popularidade”. Também fizeram comparações com as forças de choque de Mussolini e Hitler.
As mentiras tramadas pelos meios de comunicação contra o governo de Hugo Chávez, a relação da grande mídia com a elite econômica, o uso da linguagem somada com a mídia para manipulação e a articulação dos Estados Unidos distorcendo fatos são efetivamente retratados no documentário. Mostra-se claramente como a mídia e o poder estão intimamente relacionados. Esta mútua contaminação é infalível para o controle das massas, ação visada por Chávez e pela sua oposição.
O documentário causa certo impacto e reflexão de certas visões que sempre foram sistematizadas pela mídia em nossas mentes. Sempre vimos os interesses internacionais se mostrando como pacificadores, intrometendo-se nos governos subordinados, e sempre tivemos Chávez como terrível ditador. Depois de assistir ao documentário, que recomendo para os interessados na política latino-americana, passamos a ver Hugo Chávez de dois lados, e nos tornamos mais críticos e sensíveis diante da situação apresentada, que acaba se tornando mais complexa. O caso de os países latino-americanos se renderem ou não ao (anti) globalizador capitalismo e o uso dos meios comunicativos para impor ideais políticos sobre a sociedade privando-a do direito da crítica, são assuntos que se fixam no nosso pensamento no decorrer do documentário.
A revolução quase não foi (democraticamente) televisionada, mas é certo que a televisão (e os demais meios de comunicação) não será por um bom tempo alvo de ataque revolucionista. O domínio midiático das massas está programado e aceito por elas mesmas.

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