Armadura

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Entre os cigarros e copo de vodca, pode-se dizer que me escondo muito bem. Armaduras nem sempre servem aos heróis. E a fumaça e a amnésia me protegem bem do que eu não consigo me aproximar.

Já passam das dez horas e eu preciso me vestir. Hoje é dia de deixar os comprimidos e o isqueiro na terceira gaveta do armário, e gastar algumas horas de realidade com meus pais numa festa familiar. Nada de tênis, nada de batidas eletrônicas, nada de amigos. Coloquei uma camisa, deixei a barba como está, peguei a chave do carro, o celular, e saí.

Música “normal” no ambiente, um clima frio que logo foi quebrado pelo ácido da bebida queimando a garganta. Um, dois, três copos. Sentado naquela mesa, ouvindo conversas banais e fatos da infância, entrei em transe, não sei se por 5 minutos, dez, trinta minutos. A sensação de que eu estava longe de toda a bagunça que insisto em criar na minha vida por um momento deixou de ser desnorteadora, e foi boa. Deus, como foi boa.

Eu insisto em regrar meus dias com muito álcool, fumaça, batidas sem emoção, e casos que duram menos que o meu sono. É confortável pra mim. Digo que prefiro me manter neutro. Não me apego, não crio vínculos, não ligo no outro dia. Tudo isso faz com que eu me sacie e me vicie cada vez mais em tudo isso. É um ciclo vicioso e eu simplesmente não me acho no direito de poder sair. Eu me contento.

Eu me contento com pouco, com o que é vazio e distante. Tenho a feia mania de me privar de certas coisas porque simplesmente decretei que não preciso de nada disso. Dela.

E de tudo que ela representa pra mim.

Sabe, ela gostaria de estar aqui, agora. Sentada ao meu lado, roubando meu copo e rindo das piadas do meu irmão. Dançaria com o meu pai, e depois viria aqui me dar um beijo na nuca, perguntando pra onde iríamos depois. Ela gostaria de estar aqui da mesma forma que gostaria de estar em qualquer lugar comigo.

Nada seria o mesmo, e nada se repetiria a ponto de virar rotina. Ela não permitiria isso na sua vida, e nem na minha. Mas eu disse coisas que afetaram o rumo de tudo… Eu sempre disse. Pela segunda vez dispensei a felicidade por pura teimosia e medo. Pela milésima vez a deixei esperando. Sozinha, com outra pessoa, longe.

Ouço alguém chamando meu nome, e vejo que já são quatro da manhã. Algumas pessoas já foram embora, e outras dançam sem sapatos. A música está longe, funda, calma, baixa. Acho que é uma das que ela gosta. E então eu resolvo tomar alguma atitude.

Mas, como sempre, covarde.

Escrevo pra ela uma mensagem idiota, algo que poderia ser dito a qualquer hora, ou em qualquer dia. Um comentário bobo sobre alguém da festa, que eu sei que a faria acordar, ler, rir, responder outra coisa sem sentido, e voltar a dormir. Mas no fundo, eu queria dizer muito mais.

Mas eu não posso. Não consigo. Não sei viver de outra maneira… Sei que ela pode me ensinar, e que podemos passar por coisas incríveis juntos. Mas não tenho força o suficiente pra isso. Não tenho iniciativa pra dizer tudo isso a ela. Prefiro mandar aquela letra que acho a cara dela, e ouvir ela dizer que gostou.

E como ela merece mais que isso… Aliás, como ela merece alguém melhor que eu. Que não a deixe esperando, nunca. Que não deixe ela tão sozinha.

O celular vibra e eu olho. Sempre assim… De prontidão, ela me responde. Ri, me chama de bobo, mulherengo, e me manda parar de beber. Eu tento me fazer de durão, e afirmo todas suas constatações.

Mas acho que ela voltou a dormir… Ela pega no sono rápido. E também dá um jeito de ser feliz sempre, assim, rápido. Bem assim, toda menina, mas muito eu, largada e mandona.

Apesar de tudo, pelo menos sei que ela sempre vai estar aqui. E eu também.

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