Chuveiro velho

postado em: Crônicas | 0

Ela parou na frente da porta, e procurou pelas chaves na bolsa. Em instantes entraria num portal mágico, e se transportaria para o seu infinito particular. Era tudo que mais queria naquele momento: frescor de início de primavera, tentando levar no vento o seu cansaço, mas ainda sem força suficiente para isso. Precisava somente de realizar um ritual básico de sextas-feiras: rodar a chave na porta, ficar descalça e sentir o piso geladinho, amortecendo a dor do peso de se carregar durante uma longa semana, um banho demorado, e depois o velho trio: cama, chá e livro. Naquele momento, ela queria sua própria companhia, como assim gostava de chamar sua solidão e seu silêncio.

Sozinha. Só. Silêncio. Era um medo, depois uma paz. Ela não sentia mais a necessidade de outra voz. Já ouvira vozes demais na rua, no trabalho e no mercado. Havia mal em ser só ela e barulhinho da sua respiração apertada pelo aro do óculos levemente escorregado no nariz? Algumas coisas a fizeram chegar neste patamar de aceitação. Algumas atitudes, ou a falta delas, de outros seres que surgem sem nenhuma explicação na vida de alguém, e com o tempo vão desaparecendo, também sem porquê.

Ela só está vazia porque não há nada ainda que a preencha. E ela não entendia o motivo do incômodo disso por parte das outras pessoas. Ela percebia que esse recheio era sofisticado demais para ser encontrado por aí. Como preencher algo que já transbordava felicidade? Neste momento, ela só quer terminar sua leitura, esticar as pernas por baixo do cobertor, leve, já que a primavera está dando o ar da graça, e adormecer no silêncio, recentemente, seu melhor amigo.

No outro dia, viriam mais histórias, certamente, e mais momentos, barulhos e silêncios. Encontro com os amigos, uma bebida relaxante. Possibilidades… Ela não iria se preocupar muito. Isso são coisas de ansiedade, e ela havia se livrado do peso de se desejar demais o futuro. Era como chuveiro velho: não estava ligando, mas, se ligasse, não ia esquentar muito.

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