Cronicamente Inviável

postado em: Resenha de Filmes | 0

cronicamente-inviavel-poster04O longa-metragem Cronicamente Inviável, de Sergio Bianchi, lançado em 2000, retrata bem os problemas do Brasil, principalmente o de dominação e opressão de classes, presentes desde os primórdios brasileiros, até os dias atuais (dez anos após o lançamento do filme). O Brasil é exposto nas cenas como um país de pessoas hipócritas que vivem numa realidade cada vez mais caótica. Para isso, são narradas as histórias de vida de seis personagens, que exemplificam a dificuldade físico-mental de se viver no meio do caos, onde todas as classes sociais são atingidas.

A obra, com cenas fortes e enredo conflitante, tem como cenário central o restaurante de bairro rico em São Paulo, de Luis (Cecil Thiré), um homem refinado, mas irônico e pungente. Alfredo (Umberto Magnani) é um escritor que viaja o país buscando compreender, a partir de uma visão ácida da realidade, os problemas de dominação e opressão social. Adam (Dan Stulbach), que representa o caos do filme, de origem polonesa, se torna garçom do restaurante de Luis, e se destaca dos demais empregados por esta descendência européia, tanto por seu aspecto físico, quanto por sua boa instrução e insubordinação. Maria Alice (Betty Gofman) é uma carioca de classe média-alta que está sempre preocupada em praticar o mínimo de caridade, e humanidade na relação com as pessoas de classe mais baixa. Ela é casada com Carlos (Daniel Dantas), um economista de visão pragmática, que acredita na racionalidade como forma de explicar a bagunça típica do Brasil. Amanda (Dira Paes), gerente do restaurante de Luis, é uma pessoa cativante, com um passado pobre, da produção de carvão, e que se refina, garantindo seu lugar na burguesia.

O filme tenta englobar todos os principais problemas do país, que estão ligados à dominação de raças e culturas, entrelaçando os personagens principais. Observa-se o papel de dominador e dominado na questão do índio oprimido até hoje, do negro, do pobre, na relação de superioridade no trabalho até mesmo entre empregados, na diferenciação regional brasileira, em que sul e sudeste se julgam superiores às demais regiões do país, e a relação entre o homem e a natureza, onde sempre se tem o homem como dominador e destruidor, segundo o enredo do filme.

As cenas do cotidiano são marcantes, e a pura realidade nas filmagens choca. Algumas citações no decorrer do filme, como quando Maria Alice diz que “se é (menores de rua) para morrerem por abandono, que morram entorpecidos de frágil felicidade”, se referindo ao crack, são verdades (ou meias verdades) que não trazem a solução do problema, mas fazem com que o espectador reflita sobre as práticas e comportamentos sociais e sobre até onde o brasileiro contribui para a manutenção dos status sociais e do sistema. O filme mostra, em suma, como o Brasil é uma nação onde tudo o que é problema se torna característica cultural, escrevendo uma “crônica bastante inviável”.

Deixe uma resposta