Envelope vermelho

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O dia foi cansativo, e eu estou exausto, mas ainda quero contar a história de uma jovem que desapareceu. Você se importa, meu amor? É só mais uma, não muito demorada. Ela tinha um caderno, muitos livros e um grande amor. O fato é que ela um dia sumiu, deixou textos inacabados, muitos desses livros ainda não lidos e um coração partido.

Não me pergunte muito sobre o porquê do meu conhecimento sobre isso… é que encontrei um envelope vermelho com alguns de seus pertences, e tentei descobrir do que se tratavam aquelas coisas.

Primeiro, avistei um rolo de papel, que trazia um poema intitulado “Pescadores de Sonhos”.

As aves inspiram sonhos

E vôos de liberdade,

Entre o azul do céu

E o verde dos mares.

Pescadores de sonhos

Partem com as suas

Jangadas de vento.

E não se sabe onde

É o fim do oceano,

Nem o princípio das

Muralhas que cercam

A vida.

Vai pensamento alado

Pra longe; vai buscar o

Que há por detrás das

Fronteiras do próprio

Engano.

Vai além do mar e da

Terra, a traz notícias

De lá,

E o endereço da

Verdadeira riqueza

Que há em nós…

(Alexandre P. Salles).

 

Ora, minha querida. Veja bem este poema. Sei que foi dado a ela com muita paixão, por alguém que estava muito encantado. E mal sabia esse alguém que esses versos faziam exatamente o tipo da jovem. Falava de pássaros e liberdade, assim como aqueles desenhos em seu corpo.

Não existe uma paixão invejável nesses corações novos, meu bem? Você se lembra de como nos conhecemos? De como você me deixou ansioso por um sim? Bem, mas me deixe continuar a última história de hoje.

Eu tenho quase certeza de que essa moça estava muito apaixonada, viu? No envelope vermelho haviam papeis de presentes, como resquícios de lembranças de grandes carinhos, que ainda não haviam sido traduzidos em palavras. Elas estavam contidas em outro lugar: um cartão branco.

“Para filtrar os seus sonhos e para você ter um pedacinho de mim no seu quarto. Espero que goste”.

(F. F. 01/09/15)

Como essa juventude tinha jeito com as palavras, não é mesmo? Quanta nostalgia daquele tempo em que as pessoas ainda tinham a sensibilidade de enviar um cartão escrito com a própria caligrafia. Não é de se espantar que alguém tenha guardado este curto bilhete.

Então percebi que havia outro cartão, desta vez vermelho, de tema natalino. Fiquei enamorado quando li:

“Ser companheiro é, também, amenizar dificuldades. Agora, desenhar pode ficar um pouco mais fácil. Invente, experimente, corra riscos, cometa erros, comece de novo, e divirta-se… Amo você”

(F.F. 12/05/2015)

Sinto que foi um presente bem representativo para uma mulher que ama criar e voar por aí. Coloco minha mão no fogo, minha querida, que essas palavras a fizeram se arriscar diversas vezes, e começar uma nova vida, sim. Essa declaração simples, porém profunda, não deixa sombras de dúvidas. Falar que ama é para sempre, você sabe muito bem disso.

Havia ainda um último cartão, maior, amarelo. Começava e terminava com a palavra AMOR.

“Amor,

Nunca fui muito bom com massagens, mas seus pés merecem todo o cuidado do mundo, afinal, eles carregam muita beleza, simpatia e elegância. Feliz aniversário. Te amo tanto que até engordei pra caber mais amor.

(F.F. 20/03/2016)

Lindo! Eu fiquei emocionado com a rapidez do tempo entre os cartões, e com a sinceridade dos sentimentos ali cravados pela tinta. Que moça sortuda, três cartões não são pra qualquer um.

O mais importante é que senti uma necessidade imensa de devolver a quem era de direito todos esses sentimentalismos. Comecei a procurar ao redor vestígios de alguém que, por descuido, deixasse escapar de suas mãos um amor tão puro e concreto.

Minha querida, eu então enxerguei a marca de alguns passos no chão, e segui todos eles até me deparar com uma cena realmente triste… A dona das declarações e lembranças estava sentada em cima dos trilhos que levavam as mercadorias para o leste. Sozinha, calada, no entardecer do dia.

De imediato, pensei: que loucura! Se o trem chega por agora, não sobra nada além de cartões! E então me aproximei, mas bem devagar, para não assustar a pobre jovem. E então pude sentir o cheiro salgado de algumas lágrimas.

Ela era tão bonita, e de alguma forma tinha bochechas rosadas, cobertas por fios castanhos e água salgada. E então perguntei: você é a dona deste envelope?

– Eu fui caminhando de acordo com o passar do tempo, e simplesmente me encontrei aqui, sem esse envelope, e sem muitas coisas que, infelizmente, não cabiam dentro dele. – Disse a moça.

Então eu estendi o braço, e num ato de entrega, devolvi os pertences de papel e todas aquelas palavras. Mas ela não conseguiu olhar para cima, e continuou sentada, esperando não sei o que.

Eu juro que fiquei durante muito mais que uma hora ali, em pé, tentando entrar naquele sofrimento, entender o que se passava. Se o trem se avistasse logo adiante, claramente eu a salvaria, mas preferi observar aquele mistério parado.

Meu amor, eu olhei para o envelope vermelho e novamente pra ela, e em um lapso consegui entender completamente tudo. E vi que aquele envelope não era mais vermelho que o sangue do seu coração machucado.

Mas não era um triste final de uma história de amor entre duas pessoas que se amavam. Curiosamente, era o quase fim de uma história de amor de uma alma para com ela mesma. Uma alma que se perdeu em meio a tantos sofrimentos diários e silenciosos. Uma personalidade incrível que desapareceu sem deixar vestígios, deixando um corpo vazio e desamparado.

Aquelas lágrimas eram as últimas coisas que faltavam sair. Ela tentou tirar de dentro algumas coisas que faziam mal, mas deixou a porta aberta, e alguns pertences que não podiam fugir, escaparam pela frecha sem que ela percebesse.

Foi-se embora a doçura nos olhos e no timbre de sua voz. Abandonou-a toda a serenidade de um coração tranquilo e amado. Pobre menina, como ajudá-la? Como preencher aquele vazio com a sua atitude, sua inteligência, sua beleza, sua compaixão, sua gratidão, seu amor próprio, suas paixões?

Ela estava devastada. Perdida. Desamparada.

Tudo o que havia restado eram os textos inacabados em seu caderno e uma estante cheia de histórias que não eram suas. Tudo o que havia restado era um grande e arrebatador amor. Sincero, verdadeiro e precioso. Ele seria eterno, apesar de infinitamente distante. Sem calor, sem cheiro de comida pronta, sem risadas de cócegas, sem olhares comprometedores. Era demais para aquela alma suportar.

Saco vazio não para em pé, não é, meu amor? Pois então eu me cansei daquela cena, daquele envelope vermelho na minha mão suada, e tomei uma decisão. Tomei os ombros daquela jovem e a coloquei de pé. Sem ao menos uma palavra, peguei tudo o que tinha naquele envelope e a fiz engolir. Sim, engoliu tudo: cada palavra, cada cartão, cada presente, cada lembrança. Fiz aquela menina encher a sua barriga e encher-se de vida novamente.

Acho que não fiz mais do que a minha obrigação, sabe como é. Eu nunca penso muito, mas acho que fiz o certo. Então aquela menina me olhou, assustada, perdida. A barriga cheia a deu ânimo e força para tomar algumas atitudes. Mudar essa palhaçada que chamam de destino, entende, meu bem? Ela não podia ficar ali sentada, esperando o trem passar, e compressá-la como compensado. Meu deus, que ideia a dela. Como perder uma vida com esse bônus maravilhoso que é o amor?

Ainda bem… Senão não estaríamos aqui, juntos, depois de todos esses anos. Né, querida? Você dormiu? Bem, era de se esperar… Depois que a idade chega, você mais dorme do que come. Nunca imaginei que essa ordem poderia inverter. Boa noite, meu amor. Ainda te amo muito, espero poder contar mais histórias pra você amanhã.

Uma resposta

  1. […] A cada lágrima que escorre, causada por uma incompreensão, uma lembrança boa fica mais distante. E a cada pingo agridoce, você sente que está mais longe ainda de tudo o que já te deixou imensamente feliz. […]

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