ExistenZ: ainda estamos no jogo?

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Quem somos nós? O que é a realidade? Se desde o início dos tempos o ser humano faz estas perguntas e depois de assistir eXistenZ (1999), de David Cronenberg, as indagações se tornam ainda mais acentuadas. Com a infinidade de interfaces no mundo atual, complexo e hiper-real, torna-se cada vez mais difícil diferenciar onde estamos, o que somos, e para onde queremos ir. É exatamente isso que Cronenberg coloca em reflexão: até onde, nós, seres humanos, iremos com nossas interfaces entre o real e o virtual.

Para tornar essa reflexão mais interiorizada, nesta ficção científica surrealista o autor se desfaz de qualquer aparato tecnológico, como computadores e outros dispositivos eletrônicos, encontrados nos filmes de ficção científica, propositalmente, para tratar da questão híbrida da biotecnologia, e faz isso de maneira genial. Afinal, assim como diz Lúcia Santaella (1997), na medida em que sistemas cibernéticos vão se integrando a sistemas psíquicos, que redes neurais artificiais vão se ligando a redes neurais biológicas, é um conjunto cognitivo inaudito que se configura. Mas esse conjunto pode deter uma interface segura?

Ao analisar bem, nenhuma interface é totalmente segura. Quando Nietzsche incitava seus leitores a abandonarem sua humana pequenez para ir além, como bem disse Paula Sibília no livro O Show do Eu: a intimidade como espetáculo (2008), talvez estivesse pensando o mesmo que Cronenberg, quando este escreveu seu roteiro. Ao imaginar a “bio-porta” (uma interface), o autor sugeriu um dispositivo que abriria um novo mundo de infinitas possibilidades para o jogador do eXistenZ ir além de sua pequenez, sair de sua jaula.

Da maneira mais primitiva Cronenberg aborda esse conceito de interface com o “UmbyCord”, um cordão umbilical que liga o jogador (em sua “bio-porta”) com o jogo eXistenZ (no “GamePod”). Usando a meta-carne para produzir os pseudo-computadores, Cronenberg tentou humanizar o máximo possível a ponte homem-máquina, talvez para mostrar que a interação entre os dois é mais humana e que a máquina é cada vez mais uma extensão do corpo humano do que se pensa.

Para Steve Johnson, no livro A Cultura da Interface (2001), a interface basicamente se refere a softwares que fazem a interação entre usuário e máquina e o filme fez destes softwares um dispositivo que não traz a certeza do que é real ou não. A interface, ao atuar como uma espécie de tradutor, fazendo uma mediação entre as duas partes, tornando uma sensível para a outra, pode acarretar uma confusão mental, e assim tentamos nos orientar “num ambiente desnorteante”. O eXistenZ faz exatamente isso: uma sucessão de jogos dentro de outros jogos, que nos faz pensar se realmente há saída, se o mundo realmente existe ou se é um conjunto de ambientes virtuais e surreais, e que nos faz questionar: ainda estamos no jogo?


Referências bibliográficas:
– JOHNSON, Steve. A cultura da Interface. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, pág. 15-35.
– SANTAELLA, Lúcia. O homem e as máquinas. In: DOMINGUES, Diana (org.) A arte no século XXI: a humanização da tecnologia. São Paulo: Unesp, 1997, pág. 33-44.
– SIBÍLIA, Paula. O Show do Eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008, pág. 7-28.

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