Negociando a realidade – “The Killing Fields”

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O filme Os gritos do silêncio (The Killing Fields, Inglaterra, 1984), baseado em fatos reais, de David Puttnam e direção de Roland Joffé, foi o vencedor de três Oscar, em 1985, nas categorias de melhor ator coadjuvante (Haing S. Ngor), melhor fotografia e melhor edição, além de ter sido indicado nas categorias de melhor filme, melhor diretor, melhor ator (Sam Waterston) e melhor roteiro adaptado. A história é sobre o jornalista Sydney Schanberg, correspondente do New York Times na guerra do Camboja, Vietnã, na década de 70 e sua grande amizade com o tradutor cambojano Dith Pran, que o ajudou a ser premiado como melhor jornalista do ano pela cobertura dos acontecimentos da época.
O que vale ser enfatizado nesta história é a importância da tradução na vida de um correspondente estrangeiro. A amizade entre Syd e Pran denota também a intimidade entre a vertente jornalística e a vertente tradutora, que também pode interferir na realidade. Além de ter sido o primeiro filme a denunciar um dos maiores massacres da história recente de que pouca gente ficou sabendo, pode-se tirar muito proveito da obra para quem se interessa por cobertura jornalística internacional.Sydney Schanberg, um talentoso e corajoso jornalista que arriscou a vida para mostrar as atrocidades da guerra ocultadas por comandantes militares e assessores de imprensa da Casa Branca, foi impedido pelos combatentes de registrar os massacres e execuções, a dor e o sofrimento da guerra. Mas com a ajuda de seu amigo e tradutor Dith Pran, conseguiu belas matérias, primeiras páginas, e o prêmio Pulitzer de relatos internacionais, em 1976.

A tradução do cotidiano cambojano era essencial para que Sydney conseguisse apurar suas difíceis reportagens, principalmente quando foi capturado pelas forças do Khmer Vermelho, exército revolucionário comunista, que tentava implantar um novo regime na região, e que executou muitos membros da imprensa de maneira brutal. Apesar do envolvimento entre jornalista e tradutor e da obrigação deste último em traduzir o mais fielmente possível a realidade de seu país, Lenita Rimoli Esteves, pós-doutora em Lingüística, especialista em tradução, diz que “em situações muito tensas e conflituosas, tradutores, intérpretes e mediadores em geral são algumas vezes levados a suavizar os termos, ou o tom”. Foi isso o que aconteceu algumas vezes no filme, em que Pran atua como um negociador da realidade.

O medo existia, e a insegurança também, mas o instinto jornalístico fez com que Sydney, principalmente, driblasse suas fraquezas humanas, sentimentos, a dificuldade da cultura de outro país e o desconhecimento da língua local. A habilidade do tradutor Dith Pran, porém foi importantíssima para que o repórter ocidental também fosse um intérprete da realidade. Pran, atuando diversas vezes como negociador, usou a língua como arma para sobrevivência dos amigos jornalistas capturados pelo regime Khmeriano. Seu conhecimento de sua língua materna o fez libertar seu amigo Syd e demais repórteres e fotógrafos da morte no Camboja, afirmando a fala de Lenita Romoli Esteves.

A importância da língua, não só neste momento, reina nas demais cenas do filme sempre mostrando o quanto é importante conhecer também a cultura local reportada. Quando tudo parecia calmo e a paz já era comemorada, Sydney decide rumar para o hospital do Camboja para fazer um levantamento de mortos e feridos. Nestas cenas, apesar de Syd suspeitar que na verdade nada havia acabado, o espírito e a cultura cambojana de Dith Pran o fez sair pela rua e comemorar com seus compatriotas. Não só a questão da tradução, mas também a questão dos filtros culturais foram bem retratadas no longa-metragem.

Recapturados por soldados do Khmer Vermelho, os amigos revivem as situações de medo e pânico. Ao ser instalado um novo regime, os jornalistas que estavam na região conseguiram um visto e foram obrigados a retornar aos seus países. Porém Dith, que era cambojano, não pode sair do país e sujeito a viver a ditadura imposta pelo Khmer, ficou para trás. Sydney e os outros fotógrafos e jornalistas tentam falsificar um passaporte para Dith fugir, mas o plano fracassou. O cambojano foi preso e submetido às condições subumanas do Anka, partido fundado pelos revolucionários para “reeducar” o povo.

Enquanto Sydney Schanberg é premiado na América por seu grande trabalho na cobertura da guerra, Dith sofre com as torturas e a escravidão implantada pelo Anka. Sem notícias do amigo, Syd enviou correspondências com fotos de Pran para a mídia do mundo inteiro, órgãos mundiais como a Cruz Vermelha e postos da fronteira com o Camboja. Enquanto isso, Dith sofria com a fome, a tortura e a escravidão, e com o silêncio. Para não ser executado como os demais sobreviventes da classe média, Pran teve de se manter calado para que não soubessem que ele era letrado e que falava inglês e francês.

Por sorte, Pran começa a cuidar do filho de um líder não-radical do Anka e acaba conquistando sua simpatia. O líder é morto ao tentar conter um genocídio, mas antes disso sugere a Dith que fuja com seu filho, entregando-lhe mapas e demais informações necessárias. O cambojano consegue fugir do regime na companhia de alguns colegas e do menino, mas na fuga, uma mina de dinamite mata a criança e os amigos. Dith consegue chegar à fronteira do Camboja sozinho e enquanto cuida de doentes e feridos em um pequeno posto improvisado, as notícias chegam aos Estados Unidos, na redação do New York Times. Sydney foi ao seu encontro, ao som de “Imagine”, de John Lennon, bem emocionante. Finalmente viaja com o amigo para o reencontro da família, que conseguiu sair do país anos antes.

Os gritos do silêncio, apesar de não ser a tradução real do nome original do filme, parece ser bem representado nos inúmeros momentos em que vozes de crianças cortam as cenas, em que elas choram e gritam, numa forma de pedir socorro. A cena da criança, sozinha, no meio de um bombardeio, com os olhos fechados e os ouvidos tapados pelas mãos é tocante, chocante e atordoante, e talvez o momento mais marcante do longa. Envolvente, a obra britânica mostra descaradamente os horrores da guerra do Vietnã e as brutalidades do sistema imposto pelo exército do Khmer Vermelho no Camboja, além de fazer sutis críticas ao governo norte-americano, pela sua interferência no conflito.

O ator Spalding Gray, que interpretou o cônsul americano, escreveu um monólogo sobre suas experiências durante as filmagens, que posteriormente se transformaram em filme, em 1987, o “Swimming to Cambodia”, que com certeza também vale a pena assistir. Os gritos do silêncio foi também o primeiro trabalho no cinema do ator Haing S. Ngor, um médico cambojano refugiado nos Estados Unidos. Ngor, que interpretou Dith Pran, tornou-se o primeiro ator do sudeste asiático e budista a receber um prêmio da Academia como ator. Ele escreveu um livro, “A Cambodian Odyssey”. Nele, Ngor diz que, apesar do realismo do longa, o conflito no Camboja foi muito mais violento do que o representado. “Se o filme mostrasse o que realmente aconteceu, ninguém seria capaz de vê-lo”.

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