Reza

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Clara ajeitou os óculos no rosto e tomou um gole de café. Ela estava determinada a começar a escrever um romance, mas, por enquanto, o ponteiro piscava na tela após somente duas frases criadas. Ela precisava desesperadamente daquilo, ver seu projeto em progresso, ver sua história impressa em papeis, gravada nas memórias das pessoas. Clara sabia que era a única salvação para sua alma, acreditava que só libertaria o ar de seus pulmões escrevendo.

O café esfriava e os seus pés também. Já era tarde, e Clara ainda não havia conseguido organizar suas ideias naquela mente conturbada, aflita e confusa, que morava dentro de seu coração, ainda mais abalado e bagunçado. Escrever. Sua fé estava toda ali. Clara acreditava poderosamente que nas palavras sairiam todas suas angustias e que todas as respostas universais para suas indagações e indecisões seriam respondidas.

Pelas gotas tilintando na janela, bem à sua frente, ela via o alaranjado das luzes da rua. As mesmas cores da meia que tentava aquecer seus pés naquela noite fria e desregulada de um outono que ainda fazia chover. Aquele era um segredo, uma particularidade. Escrever. Era sua oração, sua libertação, sua prece por dias melhores. Os pés gelavam e as mãos também. Mas estas eram necessárias no trabalho que seguia, ainda devagar. Duas frases.

A verdade infindável é que ela não sabia escolher as palavras, e as melhores ideias para construir um enredo que faria nascer seu personagem. Era exatamente isso: Clara precisava incontrolavelmente criar uma válvula de escape, um ser irreal, que sugaria para si todas as suas dores, problemas e contrações psicológicas. Seria um segundo Eu, alguém criado com o único intuito de ser uma cobaia ficcional. Vudu.

Teria talvez chegado à loucura, pensando que este plano funcionaria? É uma possibilidade. Mas a loucura é necessária para se manter normal. Clara precisava escrever, e não sairia daquela cadeira, já desconfortável, enquanto não terminasse ao menos uma página, ou um parágrafo, ao menos. Sua obsessão por produtividade impulsionava sua sede por terminar algo que nem sequer havia começado de fato. As duas frases diziam o seguinte:

“Clara ajeitou os óculos no rosto e tomou um gole de café. Ela estava determinada a começar a escrever um romance, mas por enquanto o ponteiro piscava na tela após somente duas frases criadas”…

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