Transbordar

postado em: Crônicas | 2

Hoje foi um dia diferente. Era final de março, meu aniversário já havia passado, e além de um ano a menos para viver, eu tinha uma vontade a menos de encarar a vida. Era feriado de Semana Santa, e eu tentava entender como o sentimento religioso do luto havia sido transferido para uma alma quase pagã.

Era uma tristeza. Não sei bem explicar. É que alguns sentimentos são intraduzíveis em palavras, apenas. Mas era uma coisinha que incomodava entre o peito e a garganta, e dificultava a respiração. Tornava-a pesada e vagarosa. Pelo menos, eu consigo identificar este estado de espírito, quando perco as vontades que são de minha essência. Isso vem da falta de motivação. Todavia, não da falta de amor: este tenho sempre em uma quantidade que transita entre satisfatória e transbordante. E a resposta estava nesta palavra que não cabe em si.

Eu também precisava transbordar.

Então, eu peguei uma bolsa velha, coloquei um par de chinelos, escova de dentes, alguns livros e um pouco de ânimo. O suficiente para passar algumas horas de reclusão solitária e reflexiva. E saí do meu aconchego. Dei folga para o meu colchão, na intenção de ter uma folga de mim mesma… Caminhei em direção ao que eu chamava de refúgio às avessas. Era aquele prédio que cheirava a mantimentos, um pouco de farinha misturado com não sei o quê. Ele tinha cinco andares e mil degraus, que eram de tirar o meu fôlego.

Mas o que seria melhor para a cura do vazio senão ficar sem fôlego? Aquele lugar significava isso, em todos os sentidos. Então, encarei aqueles lances de escada, com a velha bolsa e uma chave em mãos. Lá no final da subida, o cheiro mudava… Era mais familiar. Eu atravessei as portas e encontrei o meu avesso, e incrivelmente me senti bem ali, como sempre sinto. Deitei um pouco naquela bagunça e depois fiquei na janela, observando de cima o movimento da cidade.

Eu estava sozinha, mas aquele lugar me dizia que não. Aquele lugar me dava respostas suficientes para seguir em frente. Era um lugar estrangeiro, alheio, porém meu. Cada canto daquele apartamento me trazia lembranças e sentimentos diversos. Roupas sujas no chão, recados no quadro, um livro de Bukowski e uma caixa de leite metade cheia, metade vazia, do lado da cama.

Eu passei a tarde ali, até escurecer, antes dele chegar. Entendi os meus medos, ou pelo menos tentei. Além disso, refleti sobre o que me fazia transbordar. Era aquilo ali, aquele lugar como representação. Era o futuro incerto e ao mesmo tempo certo, com uma mistura de medo e vontade. Eram as minhas paixões todas misturadas, como bagunça. Mas aquela bagunça que a gente conhece e deixa ficar.

Então eu transbordei.

Ajeitei os travesseiros, recolhi o lixo do chão, alinhei doentiamente os livros e os papeis. Tranquei as portas com zelo e desci cada degrau, com a certeza de que subiria cada um deles novamente, quantas vezes fosse preciso, até o futuro chegar.

2 Respostas

  1. Delicioso subir mil degraus nessa viagem por suas palavras. Delicioso, também, é transbordar :)

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