“Vidas cruzadas” – quando a escrita liberta

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Duas coisas me chamam a atenção em uma pessoa ou personagem: a crença no poder das palavras e a bravura de lutar por uma causa que não a afeta diretamente. Essas duas qualidades se fazem muito presentes em Eugenia Skeeter (Emma Stone), uma jovem jornalista que volta para sua cidade natal e se depara com os absurdos racistas nas casas da elite branca americana, na década de 60.

The Help, ou Vidas Cruzadas, é uma história linda, firme e emocionante, baseada no livro “A Resposta” (editora Bertrand Brasil), de Kathryn Stockett, e transformada em filme, em 2012. Indicado cinco vezes para o Globo de Ouro, e também com várias indicações no Oscar 2012, ganhando na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer, a Minny), a história se passa na pequena comunidade de Jackson, no Mississippi (EUA), e retrata de forma delicada e fascinante a crueldade cultural contra os negros.

Coisas que chocam pelo absurdo, e outras que nós, infelizmente, assimilamos ainda com o cotidiano atual. Entradas e banheiros exclusivos para negros, algo incompreensível hoje, a sina da eterna profissão, a mesma para gerações e gerações de uma família, e o preconceito embutido, subliminar em conversas informais, aparentemente vago, mas com uma força violenta. Um filme repleto de empregadas domésticas negras, destinadas a cuidarem de crianças brancas, que, ao crescerem, tornariam seus patrões e patroas, absorvidos por toda cultura do dualismo branco/negro, pelo racismo e pela intolerância.

Um ciclo vicioso, prestes a ser quebrado pela coragem de uma moça loira, que escolheu o mundo em vez de um marido, uma casa e filhos, indo contra as vontades da mãe. Eugenia, uma jovem doce, mas ao mesmo tempo descabelada, como uma perfeita escritora com alma de artista, com sede de verdade, e valentia para dar voz aos que eram soterrados pela discriminação. Com a humildade e a nobreza de reconhecer o valor do ser humano, acima de qualquer diferença física, cor ou status, Eugenia inicia um grande desafio: colher depoimentos de empregadas domésticas, negras, que sofrem não só nas mãos de seus patrões, como também nas de toda a sociedade americana dos anos 60, que fazia questão de definir, até mesmo por lei, o lugar de cada um, usando como critério a pele. (Arrepio a minha só de pensar).

A ideia, ousada para a época, foi aceita por uma editora de Nova York. Suas primeiras fontes, ou cúmplices de uma missão difícil, como prefiro chamar, foram Aibileen (Viola Davis) e Minny (Octavia Spencer), duas empregadas domésticas com coragem de sobra para relatarem todo o seu sofrimento e humilhação na vida e no trabalho diário. A luta para criar suas famílias, servindo a elite e se sentindo propriedade de alguém por uma vida inteira. E a cada uma que desperta, surgem outras aderindo a ideia de poder contar a sua história, o seu lado, suas lágrimas e sonhos. O resultado é, para Eugenia, a realização de um sonho: poder escrever o que ela acredita. Para suas fontes e novas amigas, a possibilidade de aliviar seus corações, e traçar uma nova rota em suas vidas e nas suas lutas.

Uma comédia dramática muito gostosa de assistir, com um cenário e figurino maravilhosos, de “prender os olhos”. Não só recomendo, como também convido a todos a assistir e fazer uma reflexão, sobre o quanto já caminhamos na questão do racismo e na luta pelas minorias, e o quanto ainda precisamos caminhar para vencer de vez a ignorância e a intolerância pelas diferenças, que é o que nos faz ser iguais.


 

Ps.: Super me identifiquei com Eugenia Skeeter e estou procurando o livro pra ler. Alguém sabe onde encontrar?

4 Respostas

  1. Oi :) Eu já li o livr A Resposta um ano antes de sair o filme e a emoção, descrença, os momentos engraçados são exatamente como você descreveu. A história é maravilhosa e emocionante e me marcou muito na época que li, principalmente os personagens e seus dramas. Ainda não assisti o filme infelizmente, mas que bom que você postou sobre porque me lembrou que devo ver tbm.

    Abraços!

    Mundo Silencioso|www.mundosilenciosoblog.com.br
    @BlogMSilencioso

  2. Olá,
    Não conhecia o filme nem o livro ao qual foi adaptado. Mas fiquei bastante curiosa de assisti.
    A história parece incrível e emocionante.
    Vou atrás do filme agora mesmo!

    Abraços,
    http://acordescoloridos.com

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